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Crônica

Vale a pena fazer de novo?

Nossa nostalgia às vezes nos empurra para um passado que deveria apenas ser lembrado

Alex Cavalcanti

Alex CavalcantiJornalista de profissão e escritor de coração, nordestino da gema radicado em São Paulo e colunista deste site.

17/10/2025 18h14Atualizado há 8 meses
Por: Alex Cavalcanti
Montagem: Alex Cavalcanti com reprodução de fotos da internet
Montagem: Alex Cavalcanti com reprodução de fotos da internet
O final de Vale Tudo me faz pensar neste fenômeno tão característico dos nossos dias: refazer o que já foi feito antes. Só no horário nobre da Globo, - ainda o principal termômetro do entretenimento nacional -  nos últimos cinco anos foram três remakes, todos de obras emblemáticas, mas com resultados bem diferentes dos originais. Justiça seja feita, a novela da Manuela Dias seria melhor chamada da releitura já que com tantas alterações, pouca coisa se manteve fiel à obra do Gilberto Braga da qual lembramos da TV ou do streaming. 
 
Assim como é impossível cruzar o mesmo rio duas vezes, não se pode esperar de uma obra aberta o mesmo êxito. O público é diferente e o mundo também. Talvez esta seja uma das mágicas da novela, responsável por nos fazer há mais de 50 anos acompanhar por meses toda noite a mesma história: a possibilidade de ver e se emocionar e de comentar no dia seguinte e lembrar mesmo muito tempo depois. E isso é único, como a Carolina Dieckmman tendo a cabeça raspada ao som de Lara Fabian. Como fazer de novo algo assim? Impossível.
 
Num dos meus filmes favoritos, Meia noite em Paris, o protagonista é acometido pela mesma epidemia a alimentar esta (infame) onda de remakes, live actions, reboots, spin offs e sabe se lá quais nomes mais a nossa indústria cultural dará para a falta de coragem dos produtores em contar novas histórias. Não é o caso da grama do vizinho ser melhor; a grama de ontem é que parece mais verde. Nossa memória nos prega várias peças e talvez a mais hábil seja esta: fazer crer que no passado, tudo era melhor e mais brilhante e hoje tudo é uma porcaria. Daí tentamos recriar a mágica, mas como no filme do Woody Allen, descobrimos os poréns do passado e o presente como o melhor momento para se estar.
 
São Paulo também é um remake dela mesma. Uma cidade refeita, várias e várias vezes. Para melhor. Para pior. Os palacetes da Paulista dos quais quase não há vestígio. O centro, antes cartão postal cantado pelo Cateano, mas hoje como todo coração de capital brasileira, sinônimo de decadência. Pessoas que vivenciaram outras épocas podem achar aqueles tempos melhores e querer revivê-los; eu só posso falar da cidade a qual conheço e que continua a se refazer. Para melhor. E para pior também.  
 
A única coisa constante é a mudança, já falou Camões quando tudo por aqui ainda era mato - literalmente. Não somos os mesmos de ontem, imagina de 10, 20 anos atrás; e assim o que gostamos no passado já não é o mesmo. Já imaginou reler hoje o seu livro favorito na época do primário? A leitura despertaria saudade, mas aquela sensação de descoberta e paixão só um livro nunca lido poderia despertar. Com as novelas penso em algo parecido. Assim, eis a pergunta que não quer calar: Fazer de novo, porque? As comparações, inevitáveis e cruéis - como toda comparação - dificilmente farão o que foi refeito ser considerado melhor, ou do mesmo nível do original acalentado pela nossa memória.
 
Voltemos aos remakes, ou melhor, esqueçamos deles por hora; quando der saudade daquela trama, muitas vezes ela está lá esperando em algum streaming. Vamos procurar novas histórias; ou nem tão novas assim, já que desde os gregos, pouco se criou, tudo foi re-interpretado de novo e de novo e de novo. Uma página em branco pode ser intimidadora, eu mais do que ninguém sei disso. Mas é o único lugar onde posso ser 100% livre ao ponto de até brincar de Deus, criando vidas e mundos novos. Reescrever Shakespeare? Eu não me atreveria - nem saberia por onde começar.
 
É bem mais seguro navegar por mares já conhecidos e saber onde será o ponto final - e bem mais sem graça também, convenhamos. Contemos novas histórias ou as mesmas de sempre, porém de outra forma. Como São Paulo, que se refez tantas vezes, indo de uma aldeia no topo de uma colina à maior cidade do país. Pois sempre há espaço para o novo e como na música da Elis, o passado é uma roupa que não nos serve mais.
 
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