Agora que já esclarecemos (de novo) o mistério da morte de
Odete Roitman -
eu te venero, Débora Bloch - voltemos para esta data responsável por fazer o mês de outubro tão memorável. Antes de me acusarem de ser colonizado, basta olhar ao redor ou nem mesmo sair de casa: ao abrir qualquer mídia social ou navegador de internet para se deparar não com gostosuras ou travessuras, mas sim com um
Halloween eterno e sem fim, 365 dias no ano - 366, quando o ano for bissexto.
Longe da influência ianque, o Halloween tupiniquim não é brincadeira e acontece desde 1500. Nem falo tanto da nossa história, com escravidão, colonialismo - obrigado Portugal. Lembram do Tiradentes enforcado, esquartejado e com os pedaços espalhados pelo país? Nem Edgar Allan Poe ou Stephen King ousariam tanto. É o nosso dia a dia, assustador como nenhum filme de terror jamais seria. Aqui, nada de bruxas ou fantasmas, o cidadão brasileiro é o próprio mestre do terror.
Há algo mais arrepiante do que o noticiário político de Brasília? Pensar naquele oompa-loompa de Minas Gerais como um dos deputados mais votados na história do país ou aquela infame família B. (não falo dos Bórgias, bien sûr) como representantes do pensamento de milhões. Vou parar por aqui pois a minha pálpebra já começou a tremer. Saindo da política e entrando na cultura, ainda parece enredo de um filme do Dario Argento. Confiram da lista dos livros mais vendidos da semana ou a relação das músicas mais ouvidas do país no Deezer ou Spotify. Assustador. E a programação da TV aberta? Noticiários nos quais via de regra desgraças são sempre manchetes ou naqueles policialescos com sangue a jorrar como em um slasher. Não esqueçamos dos reality shows onde anônimos e subcelebridades engaiolados chafurdam na vulgaridade - mas neste ponto já saimos do terror para entrar na escatologia, o que é demais até para mim.
A cidade de onde vos escrevo também não deixa a desejar quando o assunto é assustar. Gótica, apocalíptica, disruptiva. São Paulo poderia ser cenário de qualquer filme de terror - e quase todo dia é. Do metrô -
do qual ja falei aqui - ao dia a dia das ruas, quase tudo parece cena de roteiros do
Hitchcock ou do John
Carpenter. Robert Eggers e
Ari Aster nem precisariam de muito para rodar uma obra prima por aqui, era só deixar a camera gravando no centro (se ninguém roubá-la antes, claro) - logo, zumbis e psicopatas de todos os tipos e que fariam Hannibal Lecter parecer um seminarista.
E o horror supremo: tanta desigualdade, tanta indiferença, tanta corrupção e violência. Milhares nas ruas ou vivendo precariamente, sem o mínimo. Já imaginou como deve ser? Acho que você já me entendeu.
Estamos na primavera e me proponho sempre a levar as coisas com leveza, se possível com humor - mesmo quando o assunto é sério. Afinal, do tão falado jeitinho brasileiro, talvez a maior característica seja justamente essa, rir de tudo, inclusive da própria desgraça - o que por si só já é um pouco assustador. Divido com você por aqui o que me motiva, engradece, incomoda - comentando tudo com a língua afiada e o
savoir faire que papai do céu me deu. E se o tema aqui são as bruxas e dia delas - nas quais você pode até não acreditar, mas como naquele ditado espanhol, que elas existem, existem.