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Crônica

Onde enterro os meus mortos

O lugar habitado por nós também é morada dos nossos lutos

Alex Cavalcanti

Alex CavalcantiJornalista de profissão e escritor de coração, nordestino da gema radicado em São Paulo e colunista deste site.

02/11/2025 16h18Atualizado há 6 meses
Por: Alex Cavalcanti
Cemitério da Consolação Foto: Reprodução
Cemitério da Consolação Foto: Reprodução
Um dos cantos mais lindamente mórbidos de São Paulo é o cemitério cujo nome é o mesmo da rua na qual ele fica. É o maior e mais antigo da cidade, a nossa versão do Père Lachaise, repleto de obras de arte e gente célebre. Também ponto final de muitas histórias de amor, pois como Lilibet falou uma vez, o luto é o preço a ser pago quando se ama alguém. Li não lembro onde que o verdadeiro lar é onde cessam todas as tentativas de fuga. O lugar onde assentados, procuramos criar raízes e por fim, enterramos os nossos mortos. Para mim, este lugar é aqui. 
 
Não que exista Consolação quando o assunto é morte. De todas as experiências da vida é a mais cruel - e inevitável. Experimente amar algo ou alguém e sentirá também em algum momento o gosto amargo da perda. No luto, palavras são inúteis, desnecessárias. O que dizer para quem ficou órfão, perdeu um filho, ou o companheiro de uma vida toda? Esta ausência é impossível de suprir e sempre estará lá, como uma pedra no nosso bolso, ora pesando mais ou menos - mas sempre um peso a ser carregado.
 
 Neste dia dedicado a quem não está mais aqui, penso neles, os meus mortos, como aliás em quase todos os outros dias. Este é o poder da ausência, ela nunca nos abandona. Alguns deles estão sepultados em terra estranha e distante, outros, aqui bem próximos de mim - embora todos de certa forma me acompanhem. Estão vivos nas minhas lembranças, em momentos bons e outros nem tanto. 
 
Onde estão os seus mortos? Na mesma cidade, em outras, guardados por placas de mármore ou em fotos de saudade? Ou andarão por aí, sabe-se lá por onde tão vivos quanto qualquer pessoa? Quem sabe? Afinal, só os mortos sabem de si e nós, deles.
 
Eu seu infinito humor e sabedoria, Machado de Assis falou em uma crônica (Sobre a morte e o morrer, de 1892) como este processo deveria ser menos traumático. Ninguém deveria ir vítima de desastre, crime ou doença e morrer seria como se aposentar. Haveria cerimônia, despedida, quem sabe até lágrimas de saudade, não de dor. E quem fosse iria alegre, sem arranjos fúnebres, mas com flores de alegria e amor. 
 
Uma imagem cheia de beleza, como só um artista seria capaz de pensar. Nesta altura do campeonato, já percebi: encontrá-la está no centro deste ofício que como os meus lutos, me acompanha sempre. Escrevo em busca dela e quem sabe com um pouco de sorte neste processo encontro um pouco de sentido também, mesmo onde eles parecem ausentes, como neste mar de concreto onde vivo chamado São Paulo. 
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