Toda cidade brasileira tem o seu logradouro dedicado ao fatídico 15 de novembro; para mim este endereço já fez parte do meu dia a dia em dois lugares e tempos bem diferentes. A Place de la République pela qual eu passava todo dia naquela cidade tão bonita e tão cheia de gente metida a besta e mais recentemente sua versão paulistana. Ambas sobreviventes como eu também.
A francesa, antes Place du Château-d'Eau conta mais de mil anos nos quais já passaram de templários a cortadores de cabeça. Ela sobreviveu a tudo, de guerras aos desvarios de Bonaparte e Haussmann e hoje é uma artéria da cidade e local de muitas manifestações. Sua versão paulistana também foi da periferia ao coração da cidade. Antes Largo dos Curros, foi palco de touradas na época colonial, resistindo ao metrô e ao abandono do centro. Por alguns anos, foi praticamente meu quintal e a dois passos do Copan, do Itália, do Municipal e de tantos outros cartões postais, ela merecia mais atenção. Ex-vizinho, a conheço tão bem quanto a palma da minha mão e sei: como nós e apesar de nós ela conserva a sua beleza. O belvedere e suas copas lá de cima nos protegem do sol, as estátuas de poetas e personagens mitológicos, ambos indiferentes como as fontes e os peixes dos seus lagos. No verão pétreo daqui, várias vezes este foi um óasis possível.
Mas a moeda tem dois lados e o outro é o lixo e sujeira por toda parte, o medo de ser roubado tão presente quanto os canteiros ao redor. Perdi a conta de quantas vezes aconteceu comigo - quando os bandidos não estavam armados, eu bancava o Peter Parker, ia pra cima e fosse o que Deus quisesse - não recomendo o mesmo, caro leitor. Ah, e as meninas do trottoir circulando sempre com propostas que fariam corar Nelson Rodrigues. É meus caros, a República e a sua praça não são para amadores.
Como o sistema político ao qual presta homenagem, ela não é perfeita e necessita de cuidados constantes para poder existir. Desde 1889 decidimos não precisar mais de reis; é mais justo elegermos quem vai tomar conta da praça. Porém, entra ano e sai ano, a grama continua ressecada e os canteiros sujos. A cada eleição belas promessas e discursos - e ela continua abandonada. Minha parte infantil - cuja parcela eu tento conservar da melhor forma possível - guarda admiração por esta coisa anacrônica que é a realeza e suas pompas - ecos do menino fascinado com as histórias da Disney. O abandono no qual se encontra a nossa praça não nos faria pensar neste regime como melhor? Afinal ninguém via Lilibet dizer/fazer o que dizem e fazem nossos políticos; ela entendia o seu papel: um símbolo de dignidade, tradição e liderança, trinca a qual precisamos desesperadamente por aqui.
Não levanto bandeiras; a única a qual respeito é esta verde, amarela, azul e branca, ela própria tão esquecida quanto esta praça e este feriado o qual celebramos neste 15/11. Lembro da entrevista da ministra Carmem Lucia falando das rosas amadas pela mãe dela, mas que demandavam tanto trabalho. Como ela bem destacou, essas roseiras são como a democracia plantada bem no meio desta praça: exigem cuidado constante, há os espinhos, é certo; mas flores também e precisamos delas para continuar por aqui.