Na proximidade deste 8 de março, longe de mim a pretensão de ocupar o posto de porta voz das meninas nem muito menos saber o que elas querem. Em matéria do seu querer, elas mesmas, com suas próprias vozes - adquiridas não sem muita luta - devem falar. Mas nesta data tão importante, pensei em um pouco de leveza, afinal,
dia de batalha é todo dia; tiremos este para comemorar, como num aniversário. Um pouco de festa faz bem; as lutas nos esperam no(s) dia(s) seguinte(s).
O título e a minha abordagem podem parecer fúteis, sem sentido, bobos até, mas pego emprestado a força do hino da Cyndi Lauper para falar deste direito tão essencial, mas tão negado a meninas e mulheres no mundo inteiro: divertir-se. Apenas se divertir, sem pedir licença, sem se preocupar, sem se desculpar.
As meninas querem usar qualquer coisa sem dedinhos apontados dizendo "tá muito curto" ou "tá apertado demais". As meninas querem ir pra qualquer lugar, a praia, um boteco, um show sem o medo de serem incomodadas por algum neanderthal que resolveu pensar com a cabeça de baixo. As meninas querem pegar um elevador, um trem, um ônibus ou um táxi sem ter de se preocupar com assédio. As meninas querem estudar e trabalhar com o que amam, querem mais equidade e respeito, as meninas querem tanta coisa: quase nada cabe aqui.
Enquanto termino este texto no friozinho bom e incomum deste começo de março em SP penso em todas elas que cruzaram o meu caminho e me fizeram ainda estar aqui - parentes, amigas, colegas de trabalho. Fontes recorrentes de afeto, acolhimento, inspiração; com milhares de diferenças entre si mas só uma coisa em comum - o fato de serem sempre mulheres. Para mim, sempre criaturas com as quais eu tentava me equiparar em matéria de força. Penso em outras também, desconhecidas, porém com lutas tão familiares e imersas nas suas jornadas duplas, triplas até, elas também, fonte recorrente de inspiração.
E se comecei falando no que elas querem, chego próximo ao término com o seu oposto - que é o que eu também não quero. As meninas não querem ser julgadas por seu corpo ou aparência, as meninas não querem ser silenciadas. Elas não querem mais ter medo de sair nem de ficar, elas não querem desisitir. Concluo como comecei, com música; aqui outra canção cai como uma luva: sim Whitney Houston, não está certo, mas ok. E sem sentenças ou pessimismos; tratemos nós todos de mudar um pouco este mundo agreste para as mulheres.