Agora depois de tudo dito e re-dito e analisado, venho eu com meus pitacos, não com atraso e sim com tempo. Parte incontornável da vida, o
fracasso também é prato amargo, difícil de engolir e leva tempo para ser bem digerido, tal qual uma boa feijoada ou uma paella valenciana. Sim, perdemos (de novo) e isso bem podia ser ainda sobre estes temporais apocalípticos que nesta época nos levam embora a energia (elétrica também) e a paciência; mas não. Chuvas, aqui, acolá; na terra dos ianques as estatuetas douradas, aqui
as águas de março a fecharem o verão. Ambas, enxurradas a nos levarem sonhos e esperanças.
Sim, nosso agente secreto nadou, nadou e morreu na praia. Não precisamos do Oscar, mas o merecíamos e aqui, todo o meu afeto e respeito ao filme do Joachim Trier. Mas depois da glória do ano passado, aquele prêmio deveria ter vindo para cá novamente. E nesta altura, me pergunto: Quem nunca, mesmo em desvario nunca se imaginou ganhando um Oscar? Com discurso imaginado e tudo, estatueta improvisada com shampoo e ensaio no espelho do banheiro - obrigado Kate Winslet. Reza a lenda que o nome do prêmio foi dado pela Bette Davis, cujo um dos ex-maridos tinha as mesmas feições da cobiçada estatueta. Ironia do destino, para nós de novo o prêmio, como todo ex, ficou mercado por um certo gostinho de decepção.
Nem preciso dizer, nas colinas douradas de Hollywood nem tudo o que reluz é ouro. Aquela gente não é célebre por ser justa e como ficou evidente para nós no ano passado, um marketing bem orquestrado vale tanto quanto ou mais do que talento ou técnica. Eles mesmos inventaram a brincadeira, mas aparentemente ainda não aprenderam a brincar. Afinal, como se explica o Hitchcock e o Kubrick nunca terem ganhado um prêmio de direção? Ou Marilyn nunca ter sido sequer indicada? Ou Gleen Close sem nenhum Oscar, enquanto a Hilary Swank tem dois? A lista de absurdos é longa, paremos por aqui. Minha pálpebra já treme só de lembrar. We just move on, como na canção do Chicago.
O filme do Kleber Mendonça Filho e do Wagner Moura continua necessário, gigante, motivo de orgulho e premiadíssimo mundo afora, inclusive em Cannes - e quem já na vida tiver convivido com um francês sabe como é difícil agradar aquela gente. Sigamos. Agora com as temporadas de prêmios e de chuva concluídas e o carnaval pulado até a exaustão, um ano inteiro nos aguarda. Nada daquela certa tristeza do verão - o caminho é longo e a estrada requer atenção.