O mais assustador não foram os gritos quando o navio enfim sucumbiu na escuridão gelada ao redor. Foi o silêncio que se seguiu logo depois. Quantos minutos? Quinze, não mais. Nenhum sussuro, ou súplica ou lágrima, nem de quem estava no bote comigo ou daqueles na água em volta. Apenas o nada. As outras encolhidas ao meu lado eram só sombras e embora estivessem ao alcance da mão, pareciam tão distantes quanto o resto do mundo.
Como para suportar o frio e passar o tempo, meu pensamento vaga e refaz inúmeras vezes a viagem planejada e esperada com ansiedade. A corrida para pegar o trem em Londres, o tumulto no porto - o mundo inteiro parecia estar lá - o cheiro de tinta fresca e tudo tinindo de novo: eu me sentia em um dos cenários da ópera ou naqueles palácios franceses. A partida, Southamptom e Cherbourg no horizonte e logo depois Queenstown a pairar entre a névoa. Depois, este não mais um caminho e sim um túmulo a aprisionar todos nós.
Tudo foi muito rápido, muito confuso. O vinho e a música no jantar, a noite gelada de abril por instantes, só para tomar um ar. O conforto dos lençóis. As cabeças sonolentas entre as portas, acordadas pelo barulho e pelo tremor súbito; nos corredores, o vai e vem dos uniformes brancos e nenhuma explicação. Quando tudo começara a serenar e eu, a voltar a dormir, a batida na porta e a convocação. Algo sobre usar coletes salva-vidas e roupas quentes e subir ao convés. Quanto tempo levou? As pessoas ainda sussuravam, naquele momento. Batemos em algo. Vamos afundar. Eu só entendi quando fui colocada num daqueles barquinhos que pareciam tão pequenos e inúteis. Quanto tempo mais? Nem as ondas silenciosas e invisíveis parecem saber.
....
Era como ter mil facas penetrando no corpo ao mesmo tempo, esta é a minha lembrança mais forte, ainda hoje, tantos anos depois. Fecho os olhos e é esta a memória: Não o barulho, o medo, o escuro e sim aquele frio glacial que de certa forma, ainda está aqui, faz parte de mim - e sempre fará.
Eu sobrevivi. Cumpri o meu dever; salvar o máximo possível de pessoas e a mim próprio quando, cedido o meu lugar, já não havia mais outro. Desaparecido para sempre o Titanic na água gelada, coloquei em prática o aprendido pelo treinamento da Marinha e por instinto. Me agarrar a algo, não submergir, tomar vez por outra um gole de brandy para me aquecer. Estou aqui. Fui um dos poucos retirados da água com vida. Mas o sentimento não é de vitória - ela não é possível em uma guerra.
Continuei a servir; formei-me cirurgião. Tornei meu propósito de vida aquilo que por acaso e necessidade, aprendera naquela madrugada fatídica sob o uniforme da White Star. Trincheiras, blitzkreig, muitas outras noites sem lua como aquela de abril de 1912. Muitos mares tesmpestuosos, pouco consolo, nenhuma companhia - no fim das contas, estamos sempre sozinhos: no máximo, com Ele lá em cima a velar por todos nós.
....
É um dos meus filmes favoritos e uma tragédia como nem os gregos conceberiam e como tal, é sempre sobre este nosso hoje. E também uma exposição na qual arte, memória e humanidade se entrelaçam. Em cartaz por aqui até julho, a mostra é imperdível para todos que como eu, são aficcionados pelo navio mais famoso de todos os tempos.
Já imaginou estar na torre de vigia e ser o primeiro a avistar o iceberg? Ou estar nos cenários reais, não os do filme, os do navio mesmo. O corredor de embarque, o escritório dos telegrafistas, a sala de máquinas, os corredores inclinados e parcialmente cheios de água - por fim, um dos botes. Tudo aquilo imaginado depois de vermos o filme estrelado por Kate Winslet e Leonardo Di Caprio. Tudo isto, possível ali no Shopping Eldorado, do lado da marginal Pinheiros.
Para mim, uma das partes mais marcantes foi o meu cartão de embarque, com o nome de um passageiro real do navio recebido logo na entrada. Ao final, éramos convidados a descobrir se o nosso passageiro havia sobrevivido ou não - e também a enviar a ele (ou não) uma mensagem. O meu era Samuel Beard Risien. Britânico de 69 anos, viajante da terceira classe e com destino ao Texas, para uma nova vida que nunca chegou. Instivamente, procurei informações sobre ele e poucas encontrei, além daquelas oferecidas no souvenir da exposição. Mas estar, de alguma forma ligado a alguém real, daquele começo de século XX e personagem real desta história que mexe tanto comigo me deu outra dimensão desta história. Ela não é lenda ou ficção - e sim um capítulo real dessa jornada neste mesmo mar gelado e escuro no qual todos nós estamos.