Inclusão
Dia do Orgulho Autista reforça importância da inclusão e do respeito às diferenças durante a Copa do Mundo
Data celebrada em 18 de junho destaca a neurodiversidade e alerta para os desafios enfrentados por pessoas autistas em períodos de grande estímulo sensorial, como os jogos da Seleção
18/06/2026 07h49
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Foto: Divulgação

O Dia Nacional do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho, chama a atenção para a importância da inclusão, do respeito às diferenças e da valorização da neurodiversidade. Criada por pessoas autistas, a data busca ampliar a conscientização sobre os direitos, as potencialidades e os desafios enfrentados por quem vive com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

No Brasil, cerca de 2,4 milhões de pessoas declararam ter recebido diagnóstico de autismo, segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número representa aproximadamente 1,2% da população brasileira.

Para a psicóloga e colunista da Revista Autismo, Paula Ayub, um dos principais desafios ainda é combater estereótipos e compreender que não existe um único perfil de pessoa autista. “Quem conhece uma pessoa autista conhece uma pessoa autista, não conhece o autismo. Estamos falando de uma deficiência invisível e plural”, afirma.

A especialista explica que os chamados níveis de suporte variam de acordo com as necessidades de cada indivíduo. Enquanto algumas pessoas precisam de acompanhamento constante ao longo do dia, outras necessitam de adaptações mais pontuais. Entre os recursos utilizados estão quadros de rotina, lembretes digitais, assistentes virtuais e outras ferramentas que auxiliam na organização das atividades diárias.

Segundo Paula, o aumento no número de diagnósticos nos últimos anos está relacionado ao avanço das pesquisas científicas, à ampliação do acesso à informação e à melhor compreensão das diferentes formas de manifestação do espectro autista.

“Hoje existe um entendimento muito mais amplo sobre o autismo. Também passamos a identificar grupos que historicamente ficaram invisibilizados, como as mulheres autistas, que durante muito tempo tiveram seus sinais ignorados por questões culturais e de gênero”, explica.

Copa do Mundo pode representar desafios sensoriais

Com a aproximação da Copa do Mundo, especialistas alertam para a necessidade de tornar as celebrações mais inclusivas. Para muitas pessoas autistas, o excesso de estímulos provocado por fogos de artifício, buzinas, gritos, aglomerações e ambientes lotados pode gerar desconforto e sobrecarga sensorial.

A recomendação é respeitar as necessidades individuais e oferecer alternativas para que todos possam acompanhar os jogos da forma mais confortável possível.

“A principal orientação é respeitar as individualidades. Alguns autistas preferem ambientes mais tranquilos, outros utilizam abafadores de som, óculos escuros ou brinquedos sensoriais. O mais importante é perguntar à própria pessoa do que ela precisa”, orienta Paula Ayub.

A psicóloga também defende a criação de espaços de descompressão em locais públicos e estabelecimentos comerciais, com menos estímulos visuais e sonoros, permitindo que a pessoa possa se reorganizar emocionalmente sempre que necessário.

“Não podemos presumir que todos vão querer participar das comemorações da mesma forma. Respeitar o momento de se afastar, evitar estímulos excessivos e oferecer ambientes acolhedores são atitudes fundamentais para uma torcida verdadeiramente inclusiva”, acrescenta.

Orgulho de ser quem se é

Para muitas famílias, a data também é uma oportunidade de reforçar que o autismo não define uma pessoa.

Juliane de Araújo, mãe de Geraldo, de 16 anos, destaca que seu orgulho está no filho e em sua trajetória.

“Tenho orgulho do Geraldo exatamente como ele é. Ele é estudioso, dedicado, tem amigos e sonhos. O autismo faz parte dele, mas não o define”, afirma.

O adolescente compartilha da mesma visão. Apaixonado por futebol, ele já se prepara para acompanhar a Copa do Mundo à sua maneira.

“Eu não tenho necessariamente orgulho do autismo. Tenho orgulho de ser o Geraldo. O autismo é uma das minhas características, mas o que me faz sentir orgulho é quem eu sou”, diz.

Sensível a ruídos intensos e grandes aglomerações, Geraldo prefere assistir às partidas em locais mais tranquilos e costuma utilizar fones de ouvido quando prevê muito barulho.

“Eu gosto muito de futebol, mas prefiro assistir no meu canto, sem muita muvuca”, conta.

Informação e respeito como ferramentas de inclusão

Especialistas e familiares reforçam que o Dia Nacional do Orgulho Autista não deve ser encarado como uma celebração do diagnóstico, mas como uma oportunidade para ampliar o conhecimento da sociedade e combater preconceitos.

Presidente do Instituto Olga Kos, organização que há quase duas décadas desenvolve projetos voltados para pessoas com deficiência, Wolf Kos afirma que a inclusão passa, прежде de tudo, pelo respeito às individualidades.

“Seja durante a Copa do Mundo ou em qualquer outro momento, reconhecer as diferenças e garantir que cada pessoa possa participar da sociedade da forma que lhe for mais confortável é o caminho para uma convivência mais justa, acolhedora e inclusiva”, destaca.