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Crônica

Figura paterna

Neste Dia dos Pais, celebremos este personagem tão necessário quanto ausente

Alex Cavalcanti

Alex CavalcantiJornalista de profissão e escritor de coração, nordestino da gema radicado em São Paulo e colunista deste site.

09/08/2025 20h08
Por: Alex Cavalcanti
Foto: Francisco Aragão (Reprodução)
Foto: Francisco Aragão (Reprodução)

Neste segundo domingo de agosto, a data na qual comemora-se o dia daqueles cujo papel é nos proteger e ensinar, ou pelo menos deveria ser. Oscar Wilde uma vez disse: depois de crescidos, os filhos sempre julgam os próprios pais e raramente os perdoam. Não é o caso aqui: nada de rancores, nem de maus humores. A ideia é só refletir sobre o papel deste personagem tão necessário quanto omisso.

Afinal, o pai ausente talvez seja a figura mais presente no nosso mundo. Lembremos dEle que abandonou o filho para morrer na cruz em nome de todos nós - mas neste vespeiro, eu deixo para mexer em outra hora, há coisas mais urgentes. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, o Brasil tem mais de 11 milhões de mães que criam filhos sozinhas e na última década, o país ganhou mais 1,7 milhão de mulheres com a mesma responsabilidade. A pesquisa mostra também: 90% delas, mães solo entre 2012 e 2022 são negras e quase 15% dos lares brasileiros são chefiados por elas, proporção maior no Norte e Nordeste. A maioria (72,4%) vive só com os filhos e sem nenhuma outra rede de apoio. 

Além da desigualdade, ponto de partida para quase todas as mazelas do nosso país, encaremos o fato: o pai ausente não é exclusividade dos lares humildes; por experiência própria e testemunho ocular, ele também (não) está naqueles de berço esplêndido. Verdade seja dita, nem todos nós temos o instinto e as aptidões necessárias para sermos pais e mães - e está tudo bem. O crescei e multiplicai-vos não serve para todos, pois convenhamos, quase ninguém entende a dimensão da responsabilidade de gerar outro ser humano e cuidar dele. Talvez para muitos uma possibilidade mais acertada seria fazer como o personagem do Machado de Assis e não transmitir a nenhuma criatura o peso da existência. A maioria não pensa assim e muitos chegam à idade adulta aos trancos e barrancos, buscando em outros lugares esta figura cuja falta sentimos lá atrás. Muitas vezes, nós mesmos fazemos este papel, tentando ser aquilo que gostaríamos de ter tido. 

Nas minhas andanças pelo centro deste lugar de concreto e caos, um dos pontos pelo qual tantas vezes passo é simbolicamente, tema aqui - Praça do Patriarca. Um pouco deslocado em um dos cantos da calçada entre uma igreja do período colonial e vários arranha céus, ele está lá, taciturno e despercebido, como tantos pais Brasil afora. Mas não sejamos silêncio nem ausência; apesar de tudo, o mundo está cheio de coisas boas para preencher as nossas lacunas e sim, viver presta. 

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