
Meio de PropagandaO mercado em pauta há 15 anos no Meio de Propaganda (@meiodepropaganda). Marianna Vieira (@mariannavieiraa), jornalista responsável, é especialista em Assessoria e Publicidade. Escreva para a coluna: [email protected].
A Big é uma produtora audiovisual brasileira que passou por rebrand recente, assumindo a especialidade em animação. Característica que me chamou a atenção, afinal quando a marca faz a diferença, o Meio faz notícia. Então busquei ter um papo com um representante da marca – o próprio Big, "paulistano de 50 anos de idade que era acostumado a pegar no lápis e no papel para desenhar", como define sua biografia. E adianto que ele tem muito a dizer, visto que são quase 20 anos de produtora e uma carteira de clientes dentro e fora do nosso país, como Walt Disney, Universal Studios, Itaú, Vivo, Honda, Embratel e Volkswagen.
Em maio, veio à tona uma nova marca, com sua identidade visual reconstruída, redefinindo o posicionamento de mercado. Foi o pontapé inicial para o atual momento da Big. Entre as mudanças, também houve revisão de processos internos, treinamento dos profissionais criativos, investimentos em software, hardware e equipamentos para entregar produtos que surpreendam os clientes. Agora, a empresa também passou a utilizar mais a Inteligência Artificial como ferramenta aliada à criatividade.
Por falar em criatividade, antes de partirmos para a entrevista, retomo que a Big tem campanha premiada no Clio Awards, a “Princess on Periods”, feita para a agência Mullen Lowe UK e Bayer – e observe que este é considerado um dos principais e mais rigorosos festivais de criatividade do mundo, então agrega muito em credibilidade para o serviço da produtora. A partir de agora, as expectativas são de crescimento, com estimativa de 130% até 2027.
Meio: O que está representando esse rebranding para a empresa? Como a equipe e os clientes encararam e o que já está sendo aplicado?
Ricardo: O rebranding em 2025 é resultado direto de um planejamento estratégico que realizamos em 2024. Durante esse processo, percebemos com clareza que o mercado estava mudando. A animação já não se limitava ao 3D tradicional. A tendência era, e continua sendo, o uso combinado de múltiplas técnicas, como 2D, stop motion, VFX, IA e muito mais. Diante disso, entendemos que o verdadeiro diferencial não está na ferramenta, mas sim no olhar artístico, no desenvolvimento do craft. E isso continua sendo insubstituível. A partir dessa visão, nos reposicionamos como uma produtora de animação completa, com foco na excelência artística. O nome “Big” sempre carregou essa força, mas agora ele está assumindo, de forma clara, o que sempre representou. Big é ser criativo, ousado, corajoso. O novo posicionamento apenas traduziu isso com mais objetividade. Não ficou apenas no novo logo. Trouxe mudança de cultura dentro da empresa. Passamos a valorizar ainda mais o papel do artista em cada projeto. Enxergamos que ele é uma peça fundamental dentro do tabuleiro da criação e que nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, substitui a sensibilidade e o olhar humano. Isso também foi muito bem recebido pela equipe e pelos clientes, que perceberam esse movimento como um amadurecimento natural da Big, refletindo o momento atual do mercado e a nossa vontade de continuar evoluindo com consistência e propósito.
M: Qual o tamanho do time da Big hoje? Têm profissionais em todo o Brasil? E quais são as especialidades deles?
R: A Big funciona com uma estrutura em formato sanfona. Temos uma equipe fixa, pequena e extremamente experiente, que carrega a cultura da empresa e o nosso jeito único de produzir. São profissionais que garantem consistência, excelência e qualidade em todos os projetos. Além disso, trabalhamos com squads montados sob demanda, com talentos espalhados por todo o Brasil e também fora do país. É muito comum integrarmos artistas internacionais aos nossos projetos, especialmente quando buscamos um estilo ou técnica muito específica. As especialidades variam de acordo com cada job. Contamos com ilustradores, modeladores digitais, que são verdadeiros escultores no ambiente 3D, artistas de luz, que trabalham como fotógrafos construindo a atmosfera visual das cenas, além de editores, montadores, compositores, músicos que criam trilhas originais e muitos outros perfis técnicos e criativos. Montamos o time ideal para cada desafio, independente do porte ou complexidade. Isso nos permite manter agilidade, flexibilidade e, principalmente, a qualidade que os nossos clientes esperam.
M: Como estão encarando e utilizando a IA nas animações? Qual a principal diferença entre os processos antes e depois do advento dela?
R: A inserção da inteligência artificial nos nossos projetos ainda está em fase de pesquisa e testes. Isso porque trabalhamos com animações de alto padrão, que exigem um nível de detalhe e acabamento muito refinado, e nem sempre as ferramentas de IA estão prontas para esse nível de entrega. No entanto, é inegável que a IA já tem um papel importante, principalmente na etapa de pré-produção. Antes, essa fase envolvia uma equipe maior de artistas para o desenvolvimento de concept arts, storyboards, referências visuais e animatics. Hoje, conseguimos acelerar parte desse processo usando IA como apoio criativo, especialmente para explorar linguagens visuais, desenvolver personagens, sugerir estilos e até imaginar universos inteiros em poucos minutos. Isso não substitui o olhar do artista, que continua sendo indispensável, mas amplia nossas possibilidades de pesquisa e experimentação estética. Já na etapa de produção em si, temos sido mais cautelosos. A IA ainda gera imagens e vídeos com limitações técnicas que comprometem a consistência e o controle de qualidade que buscamos. Nosso desafio atual é entender como integrar essas novas ferramentas ao pipeline sem comprometer a excelência da entrega. Em muitos casos, alcançar o nível de acabamento que buscamos com IA dá tanto trabalho quanto uma produção tradicional em 3D, às vezes até mais, dependendo do nível de correção necessário. Estamos encarando a IA não como um atalho, mas como uma nova linguagem de trabalho. Uma ferramenta poderosa, que quando bem dirigida, pode expandir as fronteiras da criatividade.
M: Como se dá a parceria com as agências no processo de criação? É algo construído a quatro mãos?
R: Depende muito do projeto. Cada caso tem sua dinâmica. Como venho de uma formação como criativo e diretor de arte, é comum eu me envolver em projetos que ainda não estão completamente definidos ou aprovados pelo cliente. Nesses casos, o processo é realmente construído a seis mãos, com cliente, agência e produtora colaborando desde o início. Mas também é bastante frequente recebermos projetos já estruturados, com roteiro pronto, caminhos visuais bem definidos e até referências criadas com inteligência artificial, como personagens ou estilos visuais. Nesses casos, o briefing é mais completo e nosso papel é assumir a direção, garantindo uma narrativa consistente e propondo visuais que elevem o material recebido, sempre alinhados com as expectativas da agência e do cliente. Mesmo quando o roteiro já vem fechado, o processo segue colaborativo. A troca continua intensa e o trabalho segue sendo feito a várias mãos. Em tudo o que produzimos, buscamos validar cada etapa com todos os envolvidos. Esse diálogo constante é parte essencial do nosso processo criativo.
M: Qual é a sua visão sobre o cenário brasileiro da publicidade, no que diz respeito à criação utilizando animações 3D. É um recurso bem utilizado pelas agências e clientes?
R: Acredito que as agências e os clientes ainda exploram de forma tímida o potencial da animação, especialmente quando falamos de 3D. Para mim, não faz mais sentido pensar em “animação 3D” como uma categoria isolada. O 3D é apenas uma das ferramentas dentro de um arsenal criativo muito maior. As produções mais interessantes e modernas que vemos hoje combinam diferentes técnicas — desde maquetes reais, feitas em stop motion, passando por animação 2D, 3D, motion graphics, VFX e até recursos de inteligência artificial. São todas ferramentas disponíveis para criar algo visualmente potente e narrativamente impactante.
O que importa, no fim, é o resultado. A emoção que aquilo gera. E isso exige planejamento, visão criativa e tempo de desenvolvimento. Infelizmente, vejo o mercado brasileiro de publicidade atravessando uma certa crise de identidade. Muitas campanhas acabam apostando pesado em celebridades, com prazos apertados e orçamentos cada vez mais enxutos. Isso limita o espaço para inovação visual e para a construção de narrativas mais autorais. A animação sempre foi um dos recursos mais ricos e artísticos tanto no cinema quanto na publicidade. Tivemos momentos de grande valorização, como no período pós-pandemia. Mas hoje, parece que os números e os dashboards de ROI dominam o discurso, deixando de lado o aspecto humano e emocional, que sabemos que é o que realmente conecta e engaja o público. Esse tipo de resultado leva um pouco mais de tempo para ser construído, mas costuma ser mais duradouro e consistente para a marca.
M: Comente sobre alguma criação icônica da Big!
R: Um dos exemplos mais marcantes foi uma campanha que desenvolvemos para a Honda Automóveis. O briefing era direto e técnico: precisávamos criar uma vinheta para mostrar o sistema de rebatimento de bancos presente em alguns modelos da marca, uma tecnologia proprietária da Honda. Em vez de simplesmente ilustrar o funcionamento do sistema, decidimos dar um passo além. Transformamos o filme em um pequeno manifesto, onde o foco não era a tecnologia em si, mas os benefícios que ela proporciona na vida real. Criamos uma animação em 3D com uma linguagem lúdica, sensível e visualmente detalhada, mostrando situações emocionantes que se tornam possíveis graças à versatilidade dos bancos rebatíveis. O resultado superou todas as expectativas. Foi o filme com maior engajamento da marca naquele ano, com números impressionantes e um retorno muito acima do previsto. Foi um ótimo exemplo de como um bom conceito criativo e uma execução cuidadosa podem transformar um briefing técnico em algo com impacto emocional e relevância para o público.
Sensação
Vento
Umidade
